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terça-feira, 11 de março de 2025

MANUSCRITOS DE COMPUTADOR

Foto de Amauri Mejía


Pessoas mais próximas sabem que tenho, desde criança, uma coleção de canetas. Na realidade, é mais um acúmulo movido por meu gosto pessoal do que propriamente uma seleção metódica. É também sabido que tenho especial apreço pelas canetas-tinteiro, que na minha fantasia são como pincéis espalhando aquarela no papel (sou um artista visual frustrado, admito). Por conta desse meu gosto antiquado, ocorre com frequência me perguntarem se escrevo à mão ou no computador. Dada a minha dificuldade de responder apenas sim ou não, em geral a conversa segue o rumo deste pequeno artigo que você lê agora. 

Nelson de Oliveira foi muito feliz ao subintitular o livro Geração 90 com o paradoxo Manuscritos de computador. Sua antologia de contos brasileiros escritos no final do século XX anunciava a derrocada do papel (e da máquina datilográfica, mas também da caneta) diante dos softwares de edição de texto. E o escritor com isso? 

Há inúmeros ensaios, pesquisas, experimentos científicos, palpites, desavisos, defesas exaltadas de um meio ou do outro. Benefícios da escrita à mão para a saúde do cérebro, malefícios do desperdício de papel para a saúde do planeta; vantagens técnicas dos computadores, infelicidades da vida que não desconecta da internet. Agora, mais recentemente, temos a inteligência artificial, que, dizem, jogará também o escritor na lata do lixo, junto com suas bolas de papel amassado. 

De minha parte, tenho pouco a acrescentar a essa peleja. Minha experiência pessoal diz que não há, necessariamente, um melhor do que o outro (eu avisei que não consigo ficar apenas no sim ou não). Havemos, contudo, de saber usufruir do que a caneta e o teclado têm a oferecer. 

O tempo da escrita à mão é outro, quanto a isso não há dúvidas. Cada palavra demanda esforço para ser grafada no papel, então convém que seja escolhida com parcimônia. Nesse sentido, quando escrevo à mão, tento pensar melhor primeiro. Gosto um tanto também da materialidade envolvida nessa técnica: já mencionei a tinta como pintura, e há ainda o toque do papel, os ruídos de virar as páginas, a possibilidade de dobrar, amassar, cortar, colar, puxar linhas, desenhar um sorrisinho quando a coisa vai bem e rabiscar quando vai mal. E há cadernos tão lindos! 

Só que escrever com caneta cansa. Chega mesmo a doer, ainda mais se você largou esse costume lá na escola. O teclado é mais confortável, os dedos dançam entrosados, as letras surgem alinhadinhas como crianças diante do carrinho de pipoca. Aliás, bem melhor ordenadas. O que pode ser um problema: como escapar da formatação padrão disponível no editor de texto? Como esboçar caminhos criativos que não querem esperar placidamente na fila? 

Alguns argumentarão: claro que dá para recortar e colar papel, mas é bem mais prático usar a tecla control do que a tesoura. Ao ponto em que muitos escritores, quando terminam o primeiro parágrafo, na verdade escreveram e reescreveram uns dez, que durante o processo foram habitar o limbo do mundo digital (com sorte, podem ser recuperados por meio do histórico de edições, mas quem se dá ao trabalho?). 

O que me incomoda mesmo em ficar diante da tela são as interrupções e distrações. Chegam mensagens, e-mails, notícias. Você entra no dicionário online para pesquisar uma palavra e aparece uma propaganda, daí você se lembra que precisa comprar qualquer bobagem, agora mesmo, não pode esperar, abre o site da loja, e assim o texto já ficou perdido em uma das dezenas de abas abertas na área de trabalho. 

Isso, imagino, vale para todo profissional que passa o dia no computador: temos esse hábito meio ridículo de acreditar que as pessoas só estão trabalhando quando a tela ilumina seu rosto. Talvez elas produziriam resultados bem mais interessantes, criativos, volumosos se deixassem de se distrair com tudo o que o computador oferece e encarassem uma folha de papel em branco durante alguns minutos. Mas, já pensou, você desenhando quando a chefia passa para a inspeção? 

Eu escrevia bem mais à mão. Em parte, por pura teimosia. Fui me acostumando com o computador. E hoje uso um pouco de cada um. Desse embate entre escolher A ou B, penso que cada pessoa pode avaliar o que funciona melhor para si, conforme os recursos disponíveis e os seus objetivos. 

Mais importante do que a técnica utilizada é perceber na escrita um meio de criar, em vez de apenas reproduzir algo pressuposto. Explico melhor: você pode usar a escrita para registrar aquilo que pensou. Ok, mas isso é a função mais rasa e sem graça dela. Porque a escrita é um caminho exploratório que pode levar a descobrir coisas nunca pensadas antes, ou ao menos jamais pensadas por você. 

Ao escrever, você associa informações, descobre meios de expressar o que parecia não caber em palavras, coloca-se a serviço de um texto que parece querer se escrever por si mesmo e que, no final, nem parecerá ser obra sua. Um filho ilegítimo. Que é, provavelmente, a sua cara. 

Esse potencial da escrita pode ser alcançado com caneta, teclas, ditado em voz alta ou o que mais você preferir usar para juntar sujeitos e predicados. Um potencial incrível que passa despercebido a muita gente, talvez porque não consigam escrever além das tarefas burocráticas do dia a dia. Eu mesmo só percebi essa possibilidade um tempão depois de começar no ofício. 

Por fim, como provavelmente me perguntarão, já adianto a resposta: este texto começou com uma associação meio inesperada de ideias (eu lia sobre técnica de construção de personagem, lembrei da conversa que tive com um amigo sobre diferentes tipos de escritores e seus pensamentos, e nem sei dizer exatamente como me voltou a questão de escrever à mão). Daí, peguei um bloco de papel, uma caneta (tinteiro, claro), esbocei um esqueleto do texto, que teria quatro parágrafos. Fui para o computador, a coisa cresceu a despeito da minha vontade. Aceitei. Então, reescrevi tudo, editei, cortei, imprimi, rabisquei, digitei de novo, revisei, mudei palavras, troquei frases de lugar, enxuguei o prolixo, expliquei melhor a ideia solta. E deu certo, imagino. Porque, veja só, trouxe você até aqui.